O bispo brasileiro que morreu perdoando o padre que o assassinou

Baleado por um sacerdote de seu próprio clero, Dom Francisco Expedito Lopes passou suas últimas horas oferecendo o sofrimento a Deus e perdoando aquele que havia atentado contra sua vida. Sua morte, ocorrida em Garanhuns, Pernambuco, tornou-se uma das mais impressionantes histórias de perdão da Igreja Católica no Brasil.

Na noite de 1º de julho de 1957, três tiros quebraram a tranquilidade do Palácio Episcopal de Garanhuns, no agreste de Pernambuco.

Pouco depois das 18h30, funcionários da residência episcopal encontraram Dom Francisco Expedito Lopes, bispo de Garanhuns, gravemente ferido.

O autor dos disparos não era um desconhecido.

Era um padre.

E não apenas isso: tratava-se de um sacerdote pertencente ao próprio clero que Dom Expedito tinha a responsabilidade de conduzir como bispo.

Seu nome era Padre Hosana de Siqueira e Silva.

Três tiros no Palácio Episcopal

Dom Expedito havia assumido a Diocese de Garanhuns em 1955.

Nascido em 8 de julho de 1914, no Ceará, tinha apenas 42 anos quando ocorreu o atentado que lhe tiraria a vida.

Naquele 1º de julho, Padre Hosana foi ao Palácio Episcopal.

A relação entre o sacerdote e seu bispo atravessava um grave conflito disciplinar. Contra o padre existiam acusações e denúncias que haviam chegado à autoridade eclesiástica, e Dom Expedito havia tomado providências no exercício de sua função episcopal.

O encontro terminou tragicamente.

Padre Hosana sacou um revólver e disparou três vezes contra o bispo.

Após os tiros, deixou o local.

Dom Expedito permaneceu caído e ensanguentado.

Ao ser socorrido, ainda estava consciente. Segundo os relatos preservados sobre aquele momento, foi o próprio bispo quem identificou seu agressor.

Mas o que aconteceu nas horas seguintes faria com que aquela tragédia fosse lembrada não somente como a história de um assassinato.

Ela se tornaria uma história de perdão.

“Eu o perdoo”

Dom Expedito foi levado para receber atendimento médico.

Seu estado era gravíssimo.

Sabendo que poderia morrer, o bispo recebeu assistência espiritual e viveu suas últimas horas em oração.

Era perfeitamente compreensível que um homem naquela situação perguntasse por que alguém em quem havia depositado confiança sacerdotal tinha feito aquilo.

Dom Expedito tomou outro caminho.

Perdoou o padre que havia acabado de atirar contra ele.

Os estudos históricos sobre o caso mostram que, entre as muitas narrativas surgidas depois do crime, existe um elemento que aparece repetidamente e ocupa lugar central na memória sobre Dom Expedito: o perdão concedido ao seu assassino.

Não foi apenas uma declaração feita distante do sofrimento.

O bispo estava ferido mortalmente.

Sabia quem havia disparado.

Sabia que estava diante da possibilidade real da morte.

E, mesmo assim, decidiu perdoar.

Uma oferta pela conversão de seu agressor

Os relatos católicos sobre suas últimas horas acrescentam um elemento ainda mais impressionante.

Dom Expedito não teria apenas perdoado Padre Hosana.

Ele ofereceu seu sofrimento e sua própria vida pela conversão daquele que o havia ferido, além de pedir pela santificação dos sacerdotes e de sua Diocese.

Assim, enquanto seu corpo enfraquecia, sua preocupação não estava concentrada em vingança ou condenação.

Estava na salvação das almas.

O homem que poderia ter pronunciado palavras de revolta escolheu responder ao mal com aquilo que havia pregado durante sua vida: o Evangelho.

Era, de maneira concreta e dolorosa, a realização das palavras de Cristo:

“Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem.”

A morte de Dom Expedito

Dom Expedito resistiu durante algumas horas após o atentado.

Na madrugada de 2 de julho de 1957, os ferimentos venceram seu corpo.

O bispo de Garanhuns morreu.

Tinha 42 anos.

A notícia provocou enorme comoção.

Um bispo católico havia sido assassinado dentro de sua própria residência episcopal e o responsável era um sacerdote.

O crime ganhou repercussão e, ao longo das décadas seguintes, foi contado por jornais, livros, depoimentos, documentos e até pela literatura popular.

Entretanto, enquanto os detalhes do crime produziram versões e controvérsias, um aspecto permaneceu no centro da memória construída em torno do bispo:

Dom Expedito morreu perdoando.

E o Padre Hosana?

Padre Hosana foi preso e submetido à Justiça.

O processo teve grande repercussão e atravessou diferentes julgamentos.

Ele acabaria condenado e passou anos na prisão, sendo posteriormente colocado em liberdade.

Mas a história do perdão não terminaria no hospital onde Dom Expedito morreu.

Décadas depois, a memória do encontro entre vítima e agressor continuaria cercando a vida do antigo sacerdote.

Relatos reunidos sobre o caso registram também a ideia de um pedido de perdão de Hosana diante dos restos mortais de Dom Expedito e posteriormente ao Papa.

A dissertação histórica de Igor Alves Moreira chama atenção justamente para essa presença constante do perdão nas narrativas construídas em torno dos dois homens: primeiro, o perdão oferecido pelo bispo; depois, o perdão procurado pelo sacerdote.

Padre Hosana morreu em 1997.

Por que Dom Expedito ficou conhecido como o “Bispo do Perdão”?

Talvez o episódio pudesse ter entrado para a história apenas como a “tragédia de Garanhuns”.

Mas o gesto do bispo mudou a maneira pela qual sua morte seria lembrada.

O centro da história deixou de ser somente os três tiros.

Passou a ser aquilo que aconteceu depois dos tiros.

Dom Expedito teve diante de si uma das decisões mais difíceis que um cristão pode enfrentar.

Ele não estava falando teoricamente sobre perdão.

Não estava perdoando uma pequena ofensa.

Estava diante da morte provocada deliberadamente por outro homem.

E escolheu perdoá-lo.

Por isso, tornou-se conhecido como “Bispo do Perdão” e “Apóstolo do Perdão”.

Sua vida passou a ser apresentada como testemunho de que o mandamento de Cristo de perdoar não foi dado apenas para circunstâncias fáceis.

Uma causa de beatificação

Décadas depois de sua morte, a Igreja em Garanhuns iniciou o processo relacionado à sua possível beatificação.

Entre os aspectos ressaltados estão justamente as virtudes demonstradas durante sua vida e, de maneira especial, sua atitude cristã diante da morte: sua conformidade com a vontade de Deus, o perdão ao agressor e a oferta de seu sofrimento.

Isso não significa antecipar o julgamento da Igreja sobre sua santidade.

Mas mostra o impacto que aquele gesto ocorrido em 1957 continua produzindo.

O verdadeiro final da história

Quando se conta o assassinato de Dom Expedito Lopes, existe o risco de o assassino ocupar o centro da narrativa.

Mas talvez essa não seja a melhor maneira de compreender o que aconteceu em Garanhuns.

O acontecimento mais extraordinário daquela noite não foram os disparos.

Foi a resposta dada por quem recebeu os disparos.

Padre Hosana conseguiu ferir mortalmente o corpo de Dom Expedito.

Mas não conseguiu provocar nele o ódio.

Entre a vingança e o perdão, o bispo escolheu o perdão.

Entre desejar a condenação de quem o feriu e rezar por sua conversão, escolheu rezar.

E foi assim que Dom Francisco Expedito Lopes deixou este mundo, em 2 de julho de 1957:

Ferido por três tiros, mas sem levar consigo o rancor contra o homem que os disparou.

Mais de seis décadas depois, talvez seja justamente essa a razão pela qual sua história ainda é contada.

Porque perdoar quando a ferida é pequena pode ser difícil.

Perdoar quando a ferida é mortal transforma uma morte em testemunho de fé.

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DIÁRIO DE SANTA FAUSTINA

“Se a alma não praticar a Misericórdia de um ou outro modo não alcançará a Minha Misericórdia no dia do juízo. Óh! Se as almas soubessem armazenar os Tesouros Eternos, não seriam julgadas, antecipando o Meu Julgamento com obras de Misericórdia” (Diário, 1317).

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